
Fiquei muito curioso com o filme “Estômago” desde que li uma notícia no Globo sobre a participação num festival (Brasília?) e vi que tinha João Miguel e uma história com sexo e comida. Consegui tirar uma tarde de sábado para vê-lo, depois de um lauto almoço, mas não gostei. Talvez tenha sido a barriga cheia. O filme é calcado em estereótipos: o nordestino, a puta, o patrão sacana. E os personagens seguem desígnios que não são muito coerentes com as feições inicialmente apresentadas. Não acho que isso seja pedir demais, já que estamos num filme realista. Me incomodou mais o paraíba, que é pintado como bom selvagem, como o brasileiro é no mundo aos seus próprios olhos. A puta, bem, é a puta sem um pingo de inocência, corrupta, e, para não deixar, dúvidas, fala um “prá caralho” logo de início. Mas é confusa, porque se envolve com o pobre migrante, bom de tempero. Os patrões, bem, esses são os vilões: trapaceiros, mentirosos e autoritários.
O protagonista do filme, o Alecrim, traz não só a pureza de caráter, mas o talento de dar gosto às comidas mais corriqueiras. Nada é mais evocativo da superior vitalidade das almas simples como o bom tempero. Alecrim é um bom selvagem porque nos conecta com a lembrança de um tempo e um lugar (mítico) em que se sabia temperar… Só que no Nordeste, como em qualquer lugar, só se come quando se tem dinheiro. Pensar diferente é querer fazer de um rincão distante uma utopia regressiva, saudades do que nunca se viu…A Íria é de todo exagerada, e as colegas não chegam nem perto das moças do centro do Rio em sutileza, dramaticidade ou sedução. E como explicar a conversão do Alecrim em psicopata? Inconsistente a composição dos personagens. Os atores, fora João Manuel, a Íria e o Bujiu, não estão bem. No fim, fiquei com a impressão de ser uma história sobre os pobres assim como são vistos pelos remediados, com uma certa compaixão, como se fossem uma reserva de pureza e e de simplicidade, que se traduz em bondade e é inxoravelmente traída e corrompida por nossa sociedade citadina, capitalista e pilantra.
Salva-se com muito mérito a cena do sexo com macarrão, onde finalmente o filme faz o delivery do que prometeu: a sedução pelo paladar, a aproximação do prazer sexual com o prazer da comida. Pena que é curta. Nesse patamar, o filme lembra outros de comida e sedução: Tampopo; Comer, Beber, Viver; Como Água para Chocolate; O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante; Pão e Tulipas; Tomates Verdes Fritos; Vátel; A Fantástica Fábrica de Chocolate; A Festa de Babette etc





