Porque não me ufano deste mundo

Junho 16, 2008

Fiquei enfarado com “Estômago”…

Arquivado em: Uncategorized — riobound @ 10:29 pm
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Fiquei muito curioso com o filme “Estômago” desde que li uma notícia no Globo sobre a participação num festival (Brasília?) e vi que tinha João Miguel e uma história com sexo e comida. Consegui tirar uma tarde de sábado para vê-lo, depois de um lauto almoço, mas não gostei. Talvez tenha sido a barriga cheia. O filme é calcado em estereótipos: o nordestino, a puta, o patrão sacana. E os personagens seguem desígnios que não são muito coerentes com as feições inicialmente apresentadas. Não acho que isso seja pedir demais, já que estamos num filme realista. Me incomodou mais o paraíba, que é pintado como bom selvagem, como o brasileiro é no mundo aos seus próprios olhos. A puta, bem, é a puta sem um pingo de inocência, corrupta, e, para não deixar, dúvidas, fala um “prá caralho” logo de início. Mas é confusa, porque se envolve com o pobre migrante, bom de tempero. Os patrões, bem, esses são os vilões: trapaceiros, mentirosos e autoritários.

O protagonista do filme, o Alecrim, traz não só a pureza de caráter, mas o talento de dar gosto às comidas mais corriqueiras. Nada é mais evocativo da superior vitalidade das almas simples como o bom tempero. Alecrim é um bom selvagem porque nos conecta com a lembrança de um tempo e um lugar (mítico) em que se sabia temperar… Só que no Nordeste, como em qualquer lugar, só se come quando se tem dinheiro. Pensar diferente é querer fazer de um rincão distante uma utopia regressiva, saudades do que nunca se viu…A Íria é de todo exagerada, e as colegas não chegam nem perto das moças do centro do Rio em sutileza, dramaticidade ou sedução. E como explicar a conversão do Alecrim em psicopata? Inconsistente a composição dos personagens. Os atores, fora João Manuel, a Íria e o Bujiu, não estão bem. No fim, fiquei com a impressão de ser uma história sobre os pobres assim como são vistos pelos remediados, com uma certa compaixão, como se fossem uma reserva de pureza e e de simplicidade, que se traduz em bondade e é inxoravelmente traída e corrompida por nossa sociedade citadina, capitalista e pilantra.

Salva-se com muito mérito a cena do sexo com macarrão, onde finalmente o filme faz o delivery do que prometeu: a sedução pelo paladar, a aproximação do prazer sexual com o prazer da comida. Pena que é curta. Nesse patamar, o filme lembra outros de comida e sedução: Tampopo; Comer, Beber, Viver; Como Água para Chocolate; O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante; Pão e Tulipas; Tomates Verdes Fritos; Vátel; A Fantástica Fábrica de Chocolate; A Festa de Babette etc

Junho 14, 2008

1968 que não quer mesmo acabar

Arquivado em: Uncategorized — riobound @ 3:04 am
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De repente 68 ficou quarentão, que é como se dizia velho há uns 30 anos. Os jornais fazem especiais sobre a data, trazendo cronologias dos protestos estudantis na França e da guerra no Vietnam, ao mesmo tempo que reflexões sobre o significado daquilo tudo, entrevistas com personagens ainda vivos daquele ano emblemático. Ser contra é ser contra as simplificações, pela pura necessidade de ver algo analisado e explicado até a medula, e não simplificado e embalado para consumo rápido e irrefletido.

Fotos que revimos recentemente:

No entanto, o que se lê sobre 68 passa pelo tubo muito rápido, parece que foi um ano cuja agitação ainda não se compreende, ou talvez uma época que tenha deixado a impressão de uma grande véspera, porque as expectativas não se concretizaram. Difícil distinguir o que era furor e alegria rebelde dos movimentos significativos, se é que o que era significativo eram os movimentos, em sua dimensão coletiva. Os jornais, me parece, ficam entre a obrigatoriedade da efeméride e a perplexidade do incompreendido. Parece que sem a atualidade, nada daquilo se conecta às linhas do progresso que se desenhava. Não o progresso tecnológico ou econômico, é claro, mas a evolução e a transcendência que animava as esperanças.
A celebração dos 40 de 68 ganhou um ar oficialesco, de crônica envergonhada, e transparece que nos deixamos esquecer, ou mesmo que nos deixamos encantar por uma miragem baseada em acontecimentos que eram relevantes para o centro do mundo de então, mas que tinham em sua espetacularidade a maior parte de sua força. Não sei, parece que algo se perdeu nas pautas de quem está aí recapitulando esse passado. Não estou vendo uma retomada consistente do espírito contestador, que talvez tenha sido uma marca forte daquela época em que se ampliava o acesso ao ensino universitário. Parece que as reportagens estão se encaixando nas coleções de grifes que buscam ressuscitar os anos 60, como um estilo, algo que deliberadamente não se compreende muito bem e que se trai, que se dilui em semelhanças, imitações. Os cadernos especiais da Folha de SP e do Globo investiram em diagramação e em imagens estilosas de um 68 , ao ponto de fazer disso mais um clichê. Assim, 68 não pode morrer em paz.

Por exemplo. No globo de 18 de maio, segundo caderno, vemos o Ferreira Gullar, intelectual
que nos deu a teoria do não-objeto ainda nos anos 50 e um grande poeta, pela enésima vez ser entrevistado para falar do que, no fundo, é a falência, o chabu do projeto modernista, e da inanidade do que sucedeu na fase de transição da arte mais artesanal para a arte industrial. Cacete, Arnaldo Bloch, já lemos isso diversas vezes nos últimos 25 anos. Agora, retomar o conteúdo vivo e o incômodo que na época se manifestava, inclusive para criticar o próprio passado, isso não está rolando. Que tal cutucar o Gullar, um personagem dos anos 60, sem dúvida, para falar de hoje? Para falar dos caras que estão criando hoje, para apontar aquilo em que deu a industrialização e a globalização, e perguntar, hoje, qual a atualidade do incômodo? Nada de fotos do Gullar, nada de mistificações ou repetições.

Vamos ver mais imagens. Jasper Johns, já clássico:


E Oiticica, então…

Lucien Freud, há 20 anos:

E Ernesto Neto, hoje…


Depois de reler o caderno da FSP, neo-careta, eu volto…

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